O chapéu ou boné estava ao vento, levado pela velocidade e pelas trações físicas, como em uma dança. A pessoa estava no caminhão, ao término do trabalho. Nesta volta do ofício, clamou-se um pedido singelo no coração do caminhoneiro. Nem ele nem seus pensamentos conseguiram capturá-lo. Aos céus elevou-se o pedido.
Ele estava sozinho na boleia, palavra cujo sentido tem um amplo significado entre os profissionais. Um sentimento de ser o dono da estrada? Soa egoico, vou além: são os Reis e Rainhas das estradas. Por saber que existe algo além do que vemos ou pensamos, cuidam com maestria dos caminhos que percorrem. A saudade da família, do filho, filha, esposa ou marido, entes queridos.
Antes de partirem para as rotas, trajetos e afins, há uma despedida de dias, semanas ou meses. Algumas cargas completaram anos, trajetos errados, problemas ao sair e entregar, motor e pneus, eixos e todas as peças. Mesmo condições básicas como as paradas para necessidades fisiológicas. Pressão psicológica? Todas as profissões têm.
Considere o personagem que descrevi acima: Xad. Origem oriental, estatura baixa, magro e, ao que indica, forte. Não soando irônico, ou se esqueceram dos Ninjas/ 忍者? Yakuza/ ヤクザ? Os maiores lutadores de Sumô/ 相撲, Judô/ 柔道, Kyudo/ 弓道 a disciplina extrema e necessária para formar nosso caráter.
Xad despediu-se de todas as pessoas próximas; ele foi contratado para levar uma carga portuária ao Japão e, por exigência do cliente, entregar em Cuba. O valor não foi mensurado e não há necessidade de registrar aqui, pois ele tinha um hábito específico de alguns da profissão: reúnem todos os próximos, explicam e há uma votação; caso haja empate, cabia a ele a palavra final. Quando Xad chegou ao destino, ficou aguardando, entregou, pegou o recibo e, no momento de ligar o motor Volvo, uma amiga de infância gritou: era ela quem havia contratado o serviço, e ele não soube o porquê.
Ela começou a seguinte narrativa: “Te ofendi na infância e, desde então, não parei de pensar no mal que poderia ter te causado. Por isso, exigi você como o transportador da carga; dentro há objetos ancestrais da minha família, que vieram embalados com produtos do meu empreendimento aqui. E quando me lembrei de que a última notícia era que você havia se tornado caminhoneiro, efetuei a oferta. Você não voltará com caminhão; toda a sua família já está em Tóquio. O caminhão de modelo mais atual já está em sua cidade, e para sua esposa mandei uma carta escrita à mão com uma boa quantia para lhe ajudar. Nunca me esqueci do quanto te ofendi e fico remoendo de semana em semana. Espero que um dia você receba mais do que estou lhe pagando, como “Dharma” – não entendo, apenas sei que é Budista.
Estou aqui há décadas, mas acredito que há algo que pode nos tornar pessoas melhores: avaliando nossa conduta e modificando trajetos. No passado, o perdão, para você, parece bobagem ou tudo o que estou fazendo. No meu íntimo, acredito que ao menos não me condenei. Ou, ao mínimo, conquistei a minha devida desculpa mental. Como ouvi um ditado popular no Brasil que me mudou: ‘Quem bate esquece, quem apanha nunca esquece’. Não penso ser verdade; penso que eles falam isso para quem bateu se lembrar e motivar uma solução. Esse foi o meu jeito. ありがとう / Arigatô!

Nota do Autor:
Escritor, fotógrafo e criador de conteúdo. Mantenho blogs em airfeliperp.medium.com (inglês) este em português, onde exploro saúde mental, arte e histórias curtas. IG @ airfeliperp / YT @ espacoairfelipe

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